quarta-feira, 29 de abril de 2009

Enfrentando as feras: Hermenêutica bíblica lésbica a caminho

* Pessoal, encontrei este artigo e gostaria de saber a opinião de vocês a respeito dele! Desde já agradeço!!! Abraços...

Reconciliando com uma interpretação bíblica pró-lésbica os que adotam um discurso condenatório

A reconciliação precisa ser pelo menos bilateral. Como levo a hermenêutica bíblica lésbica para vários contextos onde sou convidada/contratad a para falar, muitas vezes o desconforto é visível e se manifesta frequentemente em duas reações típicas. A primeira é uma acusação: a interpretação lésbica é uma questão de wishful thinking/discurso especial de defesa. A segunda é uma pergunta: ficaria eu igualmente satisfeita em ouvir interpretações da Escritura por parte de grupos que praticam a bestialidade e/ou pedofilia? Eu não me surpreendia com a acusação, já que os teóricos queer enfrentam regularmente tais afirmações, mas fiquei um tanto surpresa com a conexão com a bestialidade, até que descobri, através das discussões com colegas, que eles tinham sido questionados da mesma forma. Vale a pena tomar a tempo para deslindar o que pode estar acontecendo com estas queixas, pois constituem claramente obstáculos e um progresso conciliatório.

Quando praticantes queer fazem afirmações duras como esta: "Nossa leitura dos textos é um ato de per-versão. Ela toma a versão autorizada da interpretação, perverte-a ou desconstrói e apresenta uma contra-leitura ou uma versão alternativa [...]", isso parece apenas confirmar as piores suspeitas de um público. Mas a parte mais significativa desta citação é o que vem a seguir: é uma versão alternativa "que não tem pretensões de definitividade ou autoridade. Deixa nossas leituras experimentais, abertas a ulterior interrogação e discussão crítica e a novos sentidos emergentes". Parece que é este concretamente o fundamento do desconforto: a possibilidade de que a Bíblia não tenha uma interpretação "fixada" à qual se possa recorrer com segurança e com certeza, que confirme para todos os tempos e lugares o ódio de Deus à homossexualidade.

Quando as leituras bíblicas lésbicas são acusadas de ser partidárias, quase se ouve o suspiro de alívio: trata-se apenas de lésbicas tentando fazer a Bíblia dizer o que ela não diz, ou seja, não preciso ficar ouvindo esses disparates. Tem-se pouca consciência de que toda interpretação bíblica é interessada, de que não existe uma palavra autorizada fixada – apenas leituras dominantes numa comunidade, às quais os membros dessa comunidade aderem. O que está em jogo aqui é quem "possui" a interpretação "correta" (ou seja, dominante) da Bíblia. E o que é efetivamente suprimido é o fato de que todos os atos de interpretação são interessados.

No mundo acadêmico, apesar do contínuo predomínio da abordagem histórico-crítica, o círculo hermenêutico é um fenômeno amplamente reconhecido e o surgimento de abordagens feministas, negras, pró-coloniais e autobiográficas é uma prova disso. Mas parece que isto ainda não impregnou plenamente o mundo leigo, onde o compromisso com a "palavra final" da Escritura combina com a suposição de que a interpretação que alguém faz dessas Escrituras está isenta de preconceitos ou influências contextuais. Isto produz uma posição rígida e fixa, que é incapaz de reconhecer que ela é na verdade o resultado de opções interpretativas conscientes ou inconscientes. É uma maneira de desarmar o interlocutor.

Quando alguém pode apelar confiantemente aos clobber texts [textos da Bíblia interpretados como condenação a homossexualidade] apontados acima e a uma enorme massa interpretativa heterossexista, é relativamente fácil dispensar desdenhosamente quaisquer tentativas de reavaliar esses textos (já que é fácil invocar a acusação de partidarismo) e lançar um olhar incrédulo a quem interpreta outras histórias de forma simpática aos gays. Por exemplo, ao ouvir uma recuperação lésbica positiva das histórias como a de Rute e Noemi, apela-se imediatamente para o casamento de Rute com Booz. Qualquer leitura que privilegie o relacionamento amoroso de Rute e Noemi é simplesmente o resultado de uma defesa dos próprios interesses.

Tais reações parecem manifestações do desejo de livrar-se do próprio desconforto lançando-o sobre o interlocutor convidado, querendo que ele admita a derrota e renuncie a essa "especulação selvagem". É muito mais fácil atacar o outro, embora com polida cortesia, do que ser autocríticos em relação ao caráter interessado de nossas privilegiadas e arraigadas interpretações. O único intérprete com preconceito tem que ser a intérprete lésbica. Mas isto não capta o aspecto essencial, porque, como esclarece Alpert, as leituras lésbicas não procuram provar que a história aconteceu realmente dessa forma, mas abrir espaço para mudança na tradição, ao fornecer antecedentes históricos para a mudança. Abrir espaço para uma interpretação lésbica do livro de Rute é uma forma de acolher as lésbicas na comunidade judaica contemporânea.

Além disso, quando se trata de ler Mq. 6,8 ou os salmos, pode-se afirmar com fundamento que as tentativas de descartar a interpretação tornam-se sem dúvida mais difíceis. Kamionkowski reconhece que o fato de os Salmos poderem ser interpretados em sentido queer "não significa que eles sejam necessariamente favoráveis aos translesbigays" , mas as leituras que ela faz mostram, não obstante, que "nenhum grupo pode pretender sozinho o acesso a este rico corpo de poesia religiosa" e sua obra abala ousadamente os pressupostos acerca da possibilidade de leitura do Saltério. A leitura que Alpert faz de Mq 6,8 não apela à estreita amizade dos personagens femininos bíblicos, mas às injunções bíblicas a andar com honestidade e dignidade diante de Deus.

Ler os profetas ou os salmos através da lente lésbica é algo inesperado e aparentemente mais inervante.[. ..] A inquietação/temor é compreensível. A hermenêutica bíblica lésbica atinge o cerne da heteronormatividade e o papel desempenhado pela Bíblia em reforçá-la, abrindo os olhos para o fato de que as leituras convencionais da Escritura têm sido não apenas androcêntricas, eurocêntricas, muitas vezes anti-semitas e imperialistas, mas também heterossexistas. Questionar isto equivale a questionar a grande suposição equivocada de que uma sociedade heterossexista é a ordem superior perfeita que Deus quis para a humanidade.

Se houvesse uma resposta totalmente satisfatória a esta questão, provavelmente não precisaríamos travar toda esta discussão e a "batalha pela Bíblia" poderia muito bem estar a caminho da solução. Mas, enquanto o abrir de par em par as portas a lésbicas, gays, transgêneros, bissexuais, drag kings e drag queens e fetichistas é suspeito de ser o começo de uma rampa escorregadia que leva a uma radical inclusão de "pecadores impenitentes" , o progresso será sempre difícil.

[...] Muitas lésbicas são ainda expulsas de seus lares religiosos ou optam por não buscar nenhuma reconciliação com as organizações religiosas, consideradas irremediavelmente homofóbicas. Algumas optam por permanecer e lutar. Aquelas que têm pertinácia de permanecer sentem a necessidade de um método de interpretação da Bíblia que não esconda de Deus e dos representantes de Deus seu amor e seu ser-queer, mas contenha em si recursos que possibilitem uma atitude ousada e corajosa, uma forma de dançar à beira do abismo. Isto significa lidar com os textos de terror e seu uso ostensivo no mundo moderno, mas também encontrar uma afirmação jubilosa e exuberante nas Escrituras."

Deryn Guest – Tradução de Gentil Avelino Titton – obra: Homossexualidades – Concilium – Fascículos 324 – 2008/1 – Revista Internacional de Teologia – Editora Vozes.
Obs.: O blog não apoia a expressão dos termos "homossexualismo", "lesbianismo", "opção sexual" ou "escolha sexual". Os termos corretos são "homossexualidade", "lesbianidade" e "orientação sexual".

3 comentários:

Silmara disse...

Olá primeiramente seu blog é muito bom. Quanto ao texto, além da biblia ter interpretações diversas o que certamente atrapalha e muito a sua confiabilidade ainda tem o fato das traduções, a cada tradução ela perdeu e ganhou pontos de vista. Como Diria Nietzsche: Sem a citação no original não dá para começar a discutir. Contudo, respeito quem entenda a biblia como um ponto importante a ser conciliado, pena, que esse concilio seja tão dificil, sempre existiram argumentos contra esse concilio, posto que a mudança tem que ser na postura e não simplesmente em interpretações.É assim que penso. E novamente parabéns pelo blog

Grazi... disse...

Olá Silmara, tudo bem?! Obrigada pelo elogio! Eu sempre tento buscar textos interessantes para este blog que possam gerar discussões enriquecedoras. Concordo plenamente com a sua opinião! Também acho que Nietzsche tinha toda razão! Aliás a obra "O Anticristo" enquanto crítica é extraordinário! Vamos aguardar mais opiniões que, como a sua, vão enriquecer e polemizar ainda mais este assunto... Grande abraço!

Silmara disse...

olá, tudo tranquilo. Certamente você tem textos interessantes aqui, para mim foi um achado seu blog. Quanto ao livro "O Anticristo" é pena que muita gente não o leia por se assustar com o nome e na realidade é uma critica a igreja e as diversas formas que usam "deus" para justificar atos atrozes. Um abraço e bom final de semana.