quarta-feira, 29 de abril de 2009

Enfrentando as feras: Hermenêutica bíblica lésbica a caminho

* Pessoal, encontrei este artigo e gostaria de saber a opinião de vocês a respeito dele! Desde já agradeço!!! Abraços...

Reconciliando com uma interpretação bíblica pró-lésbica os que adotam um discurso condenatório

A reconciliação precisa ser pelo menos bilateral. Como levo a hermenêutica bíblica lésbica para vários contextos onde sou convidada/contratad a para falar, muitas vezes o desconforto é visível e se manifesta frequentemente em duas reações típicas. A primeira é uma acusação: a interpretação lésbica é uma questão de wishful thinking/discurso especial de defesa. A segunda é uma pergunta: ficaria eu igualmente satisfeita em ouvir interpretações da Escritura por parte de grupos que praticam a bestialidade e/ou pedofilia? Eu não me surpreendia com a acusação, já que os teóricos queer enfrentam regularmente tais afirmações, mas fiquei um tanto surpresa com a conexão com a bestialidade, até que descobri, através das discussões com colegas, que eles tinham sido questionados da mesma forma. Vale a pena tomar a tempo para deslindar o que pode estar acontecendo com estas queixas, pois constituem claramente obstáculos e um progresso conciliatório.

Quando praticantes queer fazem afirmações duras como esta: "Nossa leitura dos textos é um ato de per-versão. Ela toma a versão autorizada da interpretação, perverte-a ou desconstrói e apresenta uma contra-leitura ou uma versão alternativa [...]", isso parece apenas confirmar as piores suspeitas de um público. Mas a parte mais significativa desta citação é o que vem a seguir: é uma versão alternativa "que não tem pretensões de definitividade ou autoridade. Deixa nossas leituras experimentais, abertas a ulterior interrogação e discussão crítica e a novos sentidos emergentes". Parece que é este concretamente o fundamento do desconforto: a possibilidade de que a Bíblia não tenha uma interpretação "fixada" à qual se possa recorrer com segurança e com certeza, que confirme para todos os tempos e lugares o ódio de Deus à homossexualidade.

Quando as leituras bíblicas lésbicas são acusadas de ser partidárias, quase se ouve o suspiro de alívio: trata-se apenas de lésbicas tentando fazer a Bíblia dizer o que ela não diz, ou seja, não preciso ficar ouvindo esses disparates. Tem-se pouca consciência de que toda interpretação bíblica é interessada, de que não existe uma palavra autorizada fixada – apenas leituras dominantes numa comunidade, às quais os membros dessa comunidade aderem. O que está em jogo aqui é quem "possui" a interpretação "correta" (ou seja, dominante) da Bíblia. E o que é efetivamente suprimido é o fato de que todos os atos de interpretação são interessados.

No mundo acadêmico, apesar do contínuo predomínio da abordagem histórico-crítica, o círculo hermenêutico é um fenômeno amplamente reconhecido e o surgimento de abordagens feministas, negras, pró-coloniais e autobiográficas é uma prova disso. Mas parece que isto ainda não impregnou plenamente o mundo leigo, onde o compromisso com a "palavra final" da Escritura combina com a suposição de que a interpretação que alguém faz dessas Escrituras está isenta de preconceitos ou influências contextuais. Isto produz uma posição rígida e fixa, que é incapaz de reconhecer que ela é na verdade o resultado de opções interpretativas conscientes ou inconscientes. É uma maneira de desarmar o interlocutor.

Quando alguém pode apelar confiantemente aos clobber texts [textos da Bíblia interpretados como condenação a homossexualidade] apontados acima e a uma enorme massa interpretativa heterossexista, é relativamente fácil dispensar desdenhosamente quaisquer tentativas de reavaliar esses textos (já que é fácil invocar a acusação de partidarismo) e lançar um olhar incrédulo a quem interpreta outras histórias de forma simpática aos gays. Por exemplo, ao ouvir uma recuperação lésbica positiva das histórias como a de Rute e Noemi, apela-se imediatamente para o casamento de Rute com Booz. Qualquer leitura que privilegie o relacionamento amoroso de Rute e Noemi é simplesmente o resultado de uma defesa dos próprios interesses.

Tais reações parecem manifestações do desejo de livrar-se do próprio desconforto lançando-o sobre o interlocutor convidado, querendo que ele admita a derrota e renuncie a essa "especulação selvagem". É muito mais fácil atacar o outro, embora com polida cortesia, do que ser autocríticos em relação ao caráter interessado de nossas privilegiadas e arraigadas interpretações. O único intérprete com preconceito tem que ser a intérprete lésbica. Mas isto não capta o aspecto essencial, porque, como esclarece Alpert, as leituras lésbicas não procuram provar que a história aconteceu realmente dessa forma, mas abrir espaço para mudança na tradição, ao fornecer antecedentes históricos para a mudança. Abrir espaço para uma interpretação lésbica do livro de Rute é uma forma de acolher as lésbicas na comunidade judaica contemporânea.

Além disso, quando se trata de ler Mq. 6,8 ou os salmos, pode-se afirmar com fundamento que as tentativas de descartar a interpretação tornam-se sem dúvida mais difíceis. Kamionkowski reconhece que o fato de os Salmos poderem ser interpretados em sentido queer "não significa que eles sejam necessariamente favoráveis aos translesbigays" , mas as leituras que ela faz mostram, não obstante, que "nenhum grupo pode pretender sozinho o acesso a este rico corpo de poesia religiosa" e sua obra abala ousadamente os pressupostos acerca da possibilidade de leitura do Saltério. A leitura que Alpert faz de Mq 6,8 não apela à estreita amizade dos personagens femininos bíblicos, mas às injunções bíblicas a andar com honestidade e dignidade diante de Deus.

Ler os profetas ou os salmos através da lente lésbica é algo inesperado e aparentemente mais inervante.[. ..] A inquietação/temor é compreensível. A hermenêutica bíblica lésbica atinge o cerne da heteronormatividade e o papel desempenhado pela Bíblia em reforçá-la, abrindo os olhos para o fato de que as leituras convencionais da Escritura têm sido não apenas androcêntricas, eurocêntricas, muitas vezes anti-semitas e imperialistas, mas também heterossexistas. Questionar isto equivale a questionar a grande suposição equivocada de que uma sociedade heterossexista é a ordem superior perfeita que Deus quis para a humanidade.

Se houvesse uma resposta totalmente satisfatória a esta questão, provavelmente não precisaríamos travar toda esta discussão e a "batalha pela Bíblia" poderia muito bem estar a caminho da solução. Mas, enquanto o abrir de par em par as portas a lésbicas, gays, transgêneros, bissexuais, drag kings e drag queens e fetichistas é suspeito de ser o começo de uma rampa escorregadia que leva a uma radical inclusão de "pecadores impenitentes" , o progresso será sempre difícil.

[...] Muitas lésbicas são ainda expulsas de seus lares religiosos ou optam por não buscar nenhuma reconciliação com as organizações religiosas, consideradas irremediavelmente homofóbicas. Algumas optam por permanecer e lutar. Aquelas que têm pertinácia de permanecer sentem a necessidade de um método de interpretação da Bíblia que não esconda de Deus e dos representantes de Deus seu amor e seu ser-queer, mas contenha em si recursos que possibilitem uma atitude ousada e corajosa, uma forma de dançar à beira do abismo. Isto significa lidar com os textos de terror e seu uso ostensivo no mundo moderno, mas também encontrar uma afirmação jubilosa e exuberante nas Escrituras."

Deryn Guest – Tradução de Gentil Avelino Titton – obra: Homossexualidades – Concilium – Fascículos 324 – 2008/1 – Revista Internacional de Teologia – Editora Vozes.
Obs.: O blog não apoia a expressão dos termos "homossexualismo", "lesbianismo", "opção sexual" ou "escolha sexual". Os termos corretos são "homossexualidade", "lesbianidade" e "orientação sexual".

ATÉ QUE ESTE NÃO É UM MAU BLOG...


Até que este não é um mau blog!


Recebi esse selo do blog Tempus Blogandi.

O selo é uma brincadeira que atesta que este "até que não é um mau blog"!

Existem algumas regras para se repassar este selo como premiar apenas aqueles blogs que você considera bons, acompanha e comenta com regularidade.

Obrigada meninas!

Mesmo depois de algum tempo sem escrever nada ou até mesmo postar algum link ou texto interessante de outro autor vocês continuaram prestigiando este blog!!!

Obrigada pelo apoio!

E...

Estou de volta!!!!

Grande abraço à todas e todos que vem aqui e comentam!

sábado, 25 de abril de 2009

Escolas ainda não sabem lidar com os alunos gays

A rede educacional brasileira encara os homossexuais, e não o preconceito, como problema

Ana Aranha
REVISTA ÉPOCA

No começo do ano, Daniel foi recusado em sete escolas particulares de São Paulo. Ele é transexual, um menino que se sente e age como uma menina. Só conseguiu vaga em uma escola especial, para alunos com alguma deficiência.

Quando era aluno de colégio federal do Rio de Janeiro, Pedro Gabriel Gama fez um protesto na escola contra a falta de água. No dia seguinte, ouviu do diretor: “Isso é coisa de veado!”.

Em uma escola particular de Araguaína, Tocantins, Lídia Vieira Barros brigou com uma aluna que a chamava de “sapatão”. No dia seguinte, Lídia foi mandada à orientação psicológica. A outra, não.

Em Piracicaba, interior de São Paulo, um aluno move ação contra a Secretaria de Educação. No meio de uma aula sobre fotossíntese, no ano passado, o professor se recusou a lhe entregar uma apostila. “As bichinhas não precisam desse material”, disse.

Os quatro episódios narrados acima ilustram um grande problema da rede educacional brasileira: a falta de preparo da escola para lidar com a homossexualidade e os preconceitos que ela provoca. Entrevistas feitas por ativistas gays em seis capitais mostram que a escola é o primeiro ou o segundo lugar no qual homossexuais e transexuais mais sofrem preconceito. E não é só. Duas pesquisas feitas pela Unesco em 2004 ilustram a gravidade do preconceito nas escolas: uma delas, entre os alunos, descobriu que 40% dos meninos brasileiros não querem um colega homossexual sentado na carteira ao lado; outra, com professores, mostrou que 60% deles consideram “inadmissível” que uma pessoa mantenha relações com gente do mesmo sexo. “Há um muro de preconceitos que impede as pessoas de aceitar os homossexuais: eles são promíscuos, não têm família, morrem de aids. Quando se veem diante de um aluno gay, os professores e diretores simplesmente não sabem como agir”, diz o educador Beto de Jesus, da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais.

Beto de Jesus é um dos coordenadores de um projeto financiado pelo Ministério da Educação para formar professores e ajudar as escolas a lidar com a diversidade sexual de seus alunos. O grupo vai produzir um kit didático para 6 mil escolas. Nele, haverá orientação para diretores e professores e material para os alunos. Como parte do mesmo projeto, estão sendo realizados encontros regionais com secretarias da Educação, ONGs e universidades. A ideia é coletar experiências de sucesso para ajudar a formular uma política nacional para o problema. O grupo também realiza, neste momento, a maior pesquisa qualitativa sobre homofobia nas escolas de dez capitais brasileiras, com a intenção de mapear os principais conflitos e soluções. “As escolas não estão preparadas nem para identificar esse preconceito. Enquanto os professores não podem aceitar que um aluno chame o outro de ‘negrinho’, ‘veadinho’ ainda é considerado brincadeira”, diz Carlos Laudari, diretor da Pathfinder Brasil e um dos coordenadores do projeto junto com Beto.

O Daniel ou a Dani?



Aos 8 anos, Daniel (o nome foi trocado) espalhava para os amiguinhos do colégio que era obrigado a ir disfarçado para a escola. “Meu pai quer um filho homem e me faz usar essas roupas e esse nome. Mas eu sou menina.” Aos 13, começou a passar base, usar brinco e fazer as unhas. Daniel é transexual, pessoa que nasce com um sexo, mas se sente e age como o sexo oposto. Na escola, pediu a professores que o chamassem de Dani, com pronome feminino. Queria ser “a” Dani. Mas só duas professoras concordaram. Uma semana depois que colocou mega-hair (aplicação de mechas no cabelo), sua mãe foi chamada à escola. Os pais de uma colega de classe ligaram indignados: “Não queremos nossa filha perto dessa aberração”. A solução encontrada pela diretora foi proibir a produção: o cabelo deveria estar preso e nada de maquiagem, brinco ou esmalte. Dani continuou a usar esmalte branco e brincos pequenos, mas tinha de tirar tudo quando cruzava com a diretora. No dia em que foi pego usando o banheiro feminino, levou uma bronca tão grande que nunca mais fez xixi na escola. Segurava até a hora de chegar em casa.

No ano em que saiu do armário, Dani repetiu pela primeira vez. Começou a faltar às aulas semanas seguidas e tirar nota vermelha em quase todas as matérias – menos nas duas em que as professoras concordaram em chamá- lo de Dani. A mãe se mudou para São Paulo, atrás de escolas que soubessem lidar com a diferença. Um mês depois da mudança, Dani havia sido recusado por sete colégios. Só foi aceito em uma escola especial, dirigida a alunos com dificuldade de aprendizagem e deficiência física ou mental.

É muito comum alunos transexuais abandonarem os estudos. Eles se sentem rejeitados por professores que se recusam a chamá-los pelo nome do sexo oposto e pelas restrições a seu modo de vestir. Para evitar que parem de estudar, algumas secretarias de Educação estão criando uma portaria para orientar as escolas. A primeira delas foi aprovada no Pará, no ano passado. Desde janeiro, alunos transexuais podem escolher o nome e o sexo, que fica registrado em sua matrícula. Assim, professores, diretores e funcionários têm de chamá-los e tratá-los pelo sexo de sua escolha. Em um mês, a secretaria contou 111 transexuais e travestis matriculados. “São jovens de 19 a 29 anos que tinham abandonado a escola e agora estão voltando”, diz a psicóloga Cléo Ferreira, uma das coordenadoras das mudanças na secretaria.

MAU EXEMPLO DE CIMA
Pedro, de 18 anos, fotografado durante uma oficina sobre diversidade sexual. Ele achava que o problema da aceitação de sua sexualidade viria dos colegas da escola, mas foi o diretor quem o chamou de “veado”

Pedro e o diretor

Aluno de um dos colégios federais mais disputados do Rio de Janeiro, Pedro Gabriel Gama passou os primeiros anos do ensino médio tomando coragem para se assumir gay. Ele testava a aceitação dos amigos com pequenas revelações sobre sua personalidade. Levou meses para ter coragem de cruzar a perna e colocar um brinco. As amigas reagiam: “Que brinco ridículo é esse?”, “Descruza essa perna, parece uma moça!”. A cada pequeno tabu que quebrava, vibrava com a conquista pessoal. Cansado de jogar futebol na educação física, simulou um problema no joelho para conseguir atestado médico. Conseguiu ser liberado. Mas, no intervalo, aumentavam as risadinhas abafadas. Depois de cruzar com meninos no corredor, ouvia-os imitar: “Ai, ai”.

Pedro sempre achou que a maior resistência para aceitar sua homossexualidade viria dos alunos. Até o dia em que entrou em conflito com o diretor. Líder do grêmio escolar, ele mobilizou uma greve por um dia para protestar contra a falta de água na escola. No dia seguinte, viu o diretor se aproximar dele, furioso, no pátio. “Na frente de todo mundo, ele disse: ‘Isso que você fez não é coisa de homem, é coisa de veado’.” O aluno não reagiu. “Eu não tinha base para argumentar, nem sabia que aquilo se chamava homofobia”, afirma Pedro. Ele só se assumiu na faculdade.

“A homofobia está ligada ao machismo. Os meninos desclassificam o gay para mostrar que são machos”, afirma o educador Lula Ramires, especialista na formação de professores para lidar com a diversidade sexual. Para tentar formar uma geração mais flexível, educadores estão tentando quebrar a divisão entre os sexos na escola. Já no pré, colocam meninas e meninos para usar o mesmo banheiro e brincar nas mesmas atividades. Nas fábulas, às vezes o príncipe salva a princesa, às vezes a princesa salva o príncipe. “A flexibilidade e a capacidade de se relacionar com pessoas diferentes são habilidades importantes para essa geração, que a escola não pode deixar de trabalhar”, diz o educador Beto de Jesus.

Lídia e a psicóloga

Quando estudava em uma escola particular de Araguaína, Tocantins, Lídia Vieira Barros ouvia comentários de amigos e professores sobre o fato de usar camisetão, tocar violão e não se preocupar em ser delicada. Um dia, foi pega beijando outra menina no banheiro. A notícia rapidamente se espalhou. “Ela era uma das mais bonitas da escola. Os meninos vieram me cumprimentar” , diz Lídia. O preconceito contra as lésbicas é diferente. Ele se manifesta mais contra os modos e as vestimentas masculinizadas e menos contra a opção sexual propriamente dita. Um dia isso explodiu contra Lídia. Cansada de uma aluna que gritava “sapatão” toda vez que se cruzavam no pátio, ela chamou a menina para briga. Elas se atracaram na saída do colégio, e as mães das duas foram chamadas para conversar. Na frente das quatro, a coordenadora orientou a mãe de Lídia a procurar uma psicológa para sua filha. “A outra menina saiu no crédito. Eu é que precisava de tratamento”, diz.

É comum a reação das escolas que ainda tratam o homossexual – e não o preconceito – como o problema. “A falta de preparo é grande. Os professores e diretores precisam saber separar o que pensam do modo como agem quando a questão é alunos homossexuais” , diz Alexandre Bortolini, coordenador do Projeto Diversidade Sexual na Escola, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

AULA DE TOLERÂNCIA

Alunos do 1º ano do ensino médio em uma escola estadual de Piracicaba, durante uma oficina de diversidade sexual. Eles discutem o respeito aos homossexuais

Geraldo e as apostilas

Em Piracicaba, interior de São Paulo, um aluno de 17 anos, Geraldo (o nome foi trocado), move uma ação contra a Secretaria de Educação. Ele conta que o professor de biologia se recusou a entregar uma apostila para ele e seus amigos, com a seguinte alegação: “As bichinhas não precisam deste material”. Foi reclamar na direção e fez um boletim de ocorrência. O professor foi recriminado verbalmente e pediu uma semana de licença. Depois voltou a dar aulas. Ao contrário do racismo, que pode dar cadeia, a homofobia é crime civil. Quem é condenado paga uma multa. Nesse caso, se houvesse condenação, quem pagaria a multa seria o governo, porque o professor estava em horário de trabalho.

Para tentar evitar esse tipo de confronto, uma ONG da mesma cidade ensina os professores a lidar com a diversidade sexual. O Centro de Apoio e Solidariedade à Vida faz oficinas no horário de planejamento dos professores ao longo de três anos. Primeiro, levam textos e vídeo sobre o que já foi estudado na área. “Eles ficam sabendo dos mitos que já foram quebrados e refletem sobre seus valores e preconceitos” , diz Anselmo Figueiredo, diretor da ONG e coordenador do projeto. No segundo ano, levam materiais para o professor trabalhar com os alunos e, no terceiro, vão para as salas de aula aplicar as atividades. “O professor fica assistindo para ver que não é um bicho de sete cabeças.”

ÉPOCA acompanhou uma dessas oficinas e notou como é difícil tratar o tema com os adolescentes. “É possível uma pessoa nascer com pênis e se sentir mulher?”, perguntou Anselmo a uma turma de 1o ano do ensino médio. Um aluno respondeu em voz alta: “Todo homem que gosta de homem se sente mulher!”. E continuou em voz baixa: “O Henrique (o nome foi trocado) se sentia mulher...”. O comentário foi seguido por risadinhas a seu redor. Ele se referia a um colega que estudou na mesma sala. Gay assumido, Henrique foi cercado e agredido por dez alunos mais velhos no ano passado. Anselmo continuou: “Vamos repensar nosso comportamento. Por que homem não pode gostar de balé?”. Os alunos responderam em coro: “Hummm...”. O próprio Anselmo riu com os alunos. Ele sabe que apenas uma oficina não vai mudar a cabeça de ninguém. “Precisa de trabalho constante, cartazes, atividades e intervenção do professor quando o preconceito aparecer.”

domingo, 19 de abril de 2009

Isso lembra os escravos que, para ser aceitos na casa-grande, viravam feitores e chibatavam para valer outros escravos...

Quantos amigos temos que se comportam como feitores? Eu tenho um punhado, eles são grandes amigos meus. Mas são verdadeiros feitores.

Sempre achei que quem sofre preconceito estaria para sempre livre do risco de impingir preconceito. Como se pertencer a uma minoria discriminada criasse no sujeito anticorpos que o impedissem de discriminar. Eu sou ingênuo. O mundo está cheio de negros que espancam mulheres, mulheres que esganam crianças, judeus que desejam uma solução final para a questão palestina. Ao que parece, basta pertencer à espécie humana para carregar no coração uma bomba de ódio e intolerância prestes a explodir. Percebi que era assim há uns anos, quando um amigo gay e francês declarou seu voto à ultradireita da França. Seu argumento: Eram os únicos capazes de expulsar árabes e africanos de Paris. Outro amigo olhou para ele e disse: "Legal. Só que, depois dessa faxina, sabe qual o próximo entulho que eles vão remover? Os gays. Esteja preparado". Touché!

Eu não imaginava que um sujeito pudesse ser gay e conservador ao mesmo tempo. Pensava que, ao romper com um tabu, ao desafiar ditames da sociedade, ao se tornar liberal numa área da vida, o sujeito estivesse automaticamente se libertando em todos os outros campos. Não é assim que funciona. Nem todo gay, ao sofrer represálias por sua escolha, passa a simpatizar com pessoas em condição similar. Às vezes, a ausência de empatia floresce dentro do próprio universo gay. Ou seja: há gays com forte preconceito contra outros gays.

É como se houvesse uma escala social entre os gays, uma graduação quase hierárquica: Numa ponta os gays "aspiracionais" , que orgulham a classe, que todos gostariam de ser e, na outra extremidade, os gays que envergonham a categoria, de quem todos querem distância. Perceba que uma régua dessas, feita para medir e prejulgar, aproxima muito a turma colorida, chacoalhante e seminua das paradas gays das comedidas senhoras de anágua que tomam chá em respeitáveis clubes espalhados pelo interior do Brasil e do mundo.

Há uma espécie de escala social entre os gays, dos "aspiracionais" aos que envergonham a "categoria".

Talvez os gays mais admirados sejam os que não alardeiam sua escolha, que só saem do armário num círculo íntimo, sem deixar de seguir padrões masculinos em sua opção. Talvez os gays mais apedrejados pelos outros gays sejam os afeminados, os travestis. Aqueles que tornam explícita sua negação aos padrões hegemônicos – e até debocham um pouco deles. Os gays à moda grega, que gostam de homens exatamente porque não têm apreço pelo sexo feminino, porque têm asco de vagina, detestam os gays afeminados. Estes, ao contrário, idolatram as mulheres a ponto de tentar mimetizá-las com seus trejeitos e de, talvez, desejar ter uma vagina. Mas, se a liberdade sexual deve ser ampla o suficiente para permitir que um homem decida amar outro homem, por que uma escolha secundária como usar um mocassim ou um salto alto deveria ter tamanha importância?

Ao determinar que uma opção é menos digna que a outra, os gays masculinos fazem um julgamento invasivo, reproduzem a discriminação a que são submetidos e tratam os gays femininos precisamente como são tratados. Isso lembra os escravos que, para ser aceitos na casa-grande, viravam feitores e chibatavam para valer outros escravos.

Os gays masculinos argumentam que o comportamento dos gays afeminados é sempre agressivo. E que dar bandeira dessa forma ostensiva não colabora com a causa gay: afasta e assusta possíveis interlocutores. Esse é um raciocínio utilitário e casuístico, que não dá conta da ofensa à liberdade individual perpetrada exatamente por quem é vítima dela.

Este artigo é de Adriano Silva - Revista Época nº 526 de 16/06/2008

CINZAS DA INQUISIÇÃO

Até agora fingíamos que a Inquisição era um episódio da história européia, que tendo durado do século XII ao século XIX, nada tinha a ver com o Brasil. No máximo, se prestássemos muita atenção, íamos ouvir falar de um certo Antônio José – o Judeu, um português de origem brasileira, que foi queimado porque andou escrevendo umas peças de teatro.

Mas não dá mais para escamotear. Acabou de se realizar um congresso que começou em Lisboa, continuou em São Paulo e Rio, reavaliando a Inquisição. O ideal seria que esse congresso tivesse se desdobrado por todas as capitais do país, por todas as cidades, que tivesse merecido mais atenção da televisão e tivesse sacudido a consciência dos brasileiros do Oiapoque ao Chuí, mostrando àqueles que não podem ler jornais nem freqüentar as discussões universitárias o que foi um dos períodos mais tenebrosos da história do Ocidente. Mas mostrar isso não por prazer sadomasoquista, e sim para reforçar os ideais de dignidade humana e melhorar a debilitada consciência histórica nacional.

Calar a história da Inquisição, como ainda querem alguns, em nada ajuda a história das instituições e países. Ao contrário, isso pode ser ainda um resquício inquisitorial. E, no caso brasileiro, essa reavaliação é inestimável, porque somos uma cultura que finge viver fora da história.

Por outro lado, estamos vivendo um momento privilegiado em termos de reconstrução da consciência histórica. Se neste ano (1987), foi possível passar a limpo a Inquisição, no ano que vem será necessário refazer a história do negro em nosso país, a propósito dos cem anos da libertação dos escravos. E no ano seguinte, 1989, deveríamos nos concentrar para rever a 'república' decretada por Deodoro. Os próximos dois anos poderiam se converter em um intenso período de pesquisas, discussões e mapeamento de nossa silenciosa história. Universidades, fundações de pesquisa e os meios de comunicação deveriam se preparar para participar desse projeto arqueológico, convocando a todos: 'Libertem de novo os escravos', 'proclamem de novo a República'.

Fazer história é fazer falar o passado e o presente criando ecos para o futuro.

História é o anti-silêncio. É o ruído emergente das lutas, angústias, sonhos, frustrações. Para o pesquisador, o silêncio da história oficial é um silêncio ensurdecedor. Quando penetra nos arquivos da consciência, os dados e os feitos berram, clamam, gritam, sangram pelas prateleiras. Engana-se, portanto, quem julga que os arquivos são lugares apenas de poeira e mofo. Ali está pulsando algo. Como um vulcão aparentemente adormecido, ali algo quer emergir. E emerge. Cedo ou tarde. Não se destrói totalmente qualquer documentação. Sempre vai sobrar um herege que não foi queimado, um judeu que escapou ao campo de concentração, um dissidente que sobreviveu aos trabalhos forçados na Sibéria. De nada adiantou àquele Imperador chinês ter queimado todos os livros e ter decretado que a história começasse com ele.

A história começa com cada um de nós, apesar dos reis e das inquisições.


SANTANNA, Afonso R. de. A raiz quadrada do absurdo. Rio de Janeiro, Rocco, 1989.p.196-8