sexta-feira, 28 de março de 2008

O ginecologista

Por Nina Lopes, em 26/03/2008.

"Dia desses fui ao ginecologista fazer a consulta de rotina (de seis em seis meses, rigorosamente. Depois do câncer de mama da minha mãe, todo cuidado é pouco) e fiquei 'absurdada', como diria uma amiga, com o que ouvi.

- Você toma anticoncepcional?

- Não, sou lésbica e tenho relacionamento estável com mulheres.

(cara de espanto, disfarçada)

- Entendo que a maioria das lésbicas tem constragimento em assumir, mesmo que para o ginecologista, com medo de sofrerem preconceito.

- Eu não tenho preconceito, só não entendo isso.

(cara de espanto, minha, escancarada)

- Não entende o quê? Perguntei, já indignada.

- Na cama você é homem ou mulher?

(Quase caí da cadeira e me virei do avesso com aquela pergunta)

- Sou mulher, gosto de ser mulher. Você concorda que se eu quisesse ser homem, eu teria feito mastectomia ao invés de colocar silicone?

- Sim, mas uma mulher, quando coloca silicone, faz lipo, quer ficar bonita para atrair um homem.

- Sim, mas você concorda que eu gosto de mulher? Eu quero é atrair uma outra mulher!

- Mas isso não é natural, homem é que gosta de mulher.

- Mas muita mulher também gosta de mulher!
- Você não sente falta de penetração?
- Não.
- Você e sua companheira não usam um consolo, alguma coisa?
- Não sentimos a necessidade ainda, mas usaríamos se fosse o caso. Tem dedo, lingua, boca, a gente se vira bem.
- O bom mesmo é beijar na boca, né? (como se sexo entre lésbica fosse só beijo na boca)

-O bom mesmo é gozar, a menos que as mulheres hétero tenham um orgasmo diferente do meu, eu acho que não temos diferença em nada.

- Você gosta de sexo anal?

(Péeeeeeeee. O que esta pergunta tem a ver com todo o resto? Totalmente fora de contexto...)

- Não, não gosto.

- Bom, doutor, preciso de um exame de contagem de hormônio, o senhor pode fazer o pedido por favor?

- Sim, mas certamente seu testosterona vai dar alto, né? Você gosta de mulher...

(Péeeeeeeeee, com o perdão do meu francês, caralho, esse cara se formou ontem?)
- Acho que não tem nada a ver, né doutor? Se fosse assim, não teria lésbica com mioma.

Certamente não volto lá, nem para levar o resultado dos exames. Já está mais que na hora que profissionais da saúde sejam treinados para lidarem com a diversidade e respeitarem a orientação sexual das suas pacientes.

Ele disse, no começo da nossa conversa, que não era preconceituoso. Pode não ser, mas é machista, afinal, só acredita que pode haver sexo se há penetração, que toda mulher sente falta de penetração. Ah, faça-me o favor, penetração por penetração, pode ser até uma banana! Não preenche a cavidade do mesmo jeito?"

Texto retirado do "Blog da Nina", no site Mix Brasil.
Link para o texto no blog: http://blogdanina-mixbrasil.zip.net/

Muito além da escola Xavier: Seres diferentes numa sociedade tão desigual



Por Sérgio Gomes da Silva, em 28/05/2004.






Quando vi o primeiro filme do “X-MEN”, há dois anos, saí do cinema com uma estranha sensação de reconhecer naquela história dos mutantes super-heróis, o mal-estar de um outro grupo que tinha de conviver com o resto da humanidade com o peso de guardar consigo um segredo sobre si mesmo, sobre o seu próprio eu, com medo, ou receio, de ser discriminado. Quando vi este segundo filme, tive a certeza disso!

Os X-MEN, ou melhor, a história desses mutantes com super-poderes, porém, com conflitos pessoais que extrapolam o seu grupo e a sua comunidade, guarda profundas semelhanças com nossa vida real, com as relações humanas e a vida em nossa sociedade e todos aqueles que um dia já foram vítimas da intolerância, tal como aquela que atinge gays e lésbicas em todo o mundo.

Vamos aos filmes, para melhor exemplificar o que queremos dizer. No primeiro, somos levados a conhecer dois grupos que tentam conviver com os seres humanos (denominados de "normais"), tendo que esconder seus super-poderes gerados através de uma suposta mutação no cromossomo "x", o que dá a cada um dos mutantes poderes fantásticos. Os seres humanos têm conhecimento do seres mutantes, e como todo o grupo que aceita pouco as diferenças do outro, tentam segregá-los, insurgindo a tópica máxima da intolerância, cujo horror do nazismo nos serve de espelho, até nos dias de hoje.

Como em toda a história de heróis, existem os bons e os maus. Uns, como aqueles liderado pelo Prof. Charles Xavier, acreditam na convivência pacífica entre mutantes e não mutantes e lutam por um mundo menos desigual, mais próximo da nossa luta diária a favor dos direitos de minorias. Outros, como o grupo liderado pelo ambicioso "Magneto", acreditam que a humanidade deveria se curvar diante dos poderes dos mutantes - aqui encontramos a sociedade baseada no ideal de intolerância, que aceita menos os negros, os gays e lésbicas, as diversas formas religiosas etc. Aqui, também estamos próximo da nossa realidade. Os "pit-boys" das grandes cidades, que fomentam o ódio e a violência, estão aí para provar o que eu digo.

No segundo filme esta luta por uma convivência pacífica continua com os antigos e os novos mutantes do grupo, sempre liderados pelo Prof. Xavier, que detém uma escola para ensinar aos mutantes a dominarem seus poderes e aprenderem a conviver com seus conflitos internos por ser "um diferente" em meio a uma sociedade "tão desigual".

Com o seu estigma, se perguntam até onde é bom "ser um mutante?". O que ganham com seus poderes, se a sociedade os aceitam menos, os segregam, e os toleram menos? Mais do que isso: alguns deles, como o adolescente que pode controlar o fogo - Piro - se pergunta se o mundo é assim mesmo - tão cruel com aqueles que são "diferentes", então qual é o melhor lado de se estar: do lado dos mocinhos, que lutam contra a intolerância, ou do lado dos bandidos, que acreditam na superioridade de uma "raça" (qualquer semelhança com a barbárie do nazismo, não é mera coincidência, mas também poderíamos trocar raça por religião, ou identidade ou escolha sexual e afetiva)?

Mas os X-MEN guardam mais questionamentos entre nós, humanos, do que poderia esperar a nossa vã filosofia. Até onde vai a nossa intolerância para com os nossos minimamente diferentes? Qual a distância mínima possível que devemos manter para aquele que nos é insuportável a convivência?

Quando acreditamos que essas diferenças legitimam uma dada preferência erótica, buscamos, por exemplo, na ciência, a gênese de nossas subjetividades, algo que reforce essa crença. Não tem sido esse o argumento de cientistas que tentam provar a todo o custo o fisicalismo genético da homossexualidade, ou de antropólogos ou etnólogos, que buscam nos animais ou na natureza, a normatividade da suposta homossexualidade?

Será que o erro não está no modo como ensinamos os outros a serem sujeitos? Criamos nossos filhos para serem intolerantes. Jamais educamos uma criança para que ela compreenda a diversidade de uma sociedade como a que temos hoje em dia. Nesse sentido, a certa altura dos "X-MEN II", os pais do Homem de Gelo se perguntam, ao descobrir os poderes do filho: "Onde foi que erramos?". Não é exatamente esta a pergunta que fazem os pais de adolescentes gays, quando descobrem a sexualidade dos filhos?

Os "X-MEN II" é um filme oportuno, quando põe na ficção, um assunto tão delicado quanto os limites da intolerância.

Freud, retomando a metáfora dos porcos espinhos contada por Schopenhauer é, em minha opinião, quem melhor responde esses questionamentos.

A metáfora: Diz-se que dois porcos espinhos em meio à chuva tentavam sobreviver ao frio decorrente dela, quando tiveram a idéia de se aquecerem com o calor dos seus corpos. Quando se aproximaram, um espetou o outro com seus espinhos, e se repeliram. Novamente veio o frio, e tentaram se aproximar novamente, vindo a se espetar com os espinhos um do outro, e se repeliram mais uma vez. E ficaram se aproximando e se repelindo, até encontrarem uma distância intermediária de modo a se aquecerem sem se espetar um com os espinhos do outro.

Essa é a medida exata da tolerância: respeitar os limites e os espaços do outro. É essa máxima que vemos nos dois filmes dos X-MEN: a luta pelo respeito às nossas mínimas diferenças, às nossas singularidades.

No tocante à (homo)sexualidade, o sentido é o mesmo. Quando passamos a acreditar em uma normalidade e uma patologia quanto à sexualidade de determinadas pessoas, e quando acreditamos que homens e mulheres merecem melhor e maior respeito por pertencer a uma determinada "espécie sexual", passamos a fomentar o preconceito, a discriminação, a intolerância, o ódio ao nosso semelhante. Para que aprendamos a respeitar o outro, é preciso se colocar no lugar dele, afinal, o filósofo norte-americano Richard Rorty já dizia que "cruel é aquele que não sabe ou não conseguiu se colocar no lugar de quem sofre de modo a descrever crueldade como aquilo que de pior podemos fazer a um ser humano".

Portanto, por mais difícil que isso seja, é preciso fomentar outra coisa nas nossas relações em comunidade, talvez desejar algo melhor do que o ódio. Uma possibilidade talvez seja "um desejo por solidariedade" e o repúdio a todas as formas de intolerância, por mais difícil que seja aceitarmos o outro incondicionalmente.

Precisamos acreditar e insistir nessa possibilidade. Não que eu acredite que um dia chegaremos a uma sociedade sem conflitos de qualquer espécie, mas acredito que somos capazes de ensejar um desejo pela solidariedade, pela tolerância e pelo respeito ao outro. Somos capazes disso, porque somos humanos! Podemos mudar a sociedade que construímos e que vivemos.

Na ficção, os X-MEN tentar ir além da sua condição de mutantes. Por que nós não fazemos o mesmo, no tocante à nossa sexualidade e a nossa condição de sermos "seres humanos"? Nós não nos definimos essencialmente apenas como seres sexuais. Somos mais do que isso. Somos filhos, sobrinhos, mães, avós, tios... Somos ainda advogados, psicólogos, juristas, enfermeiras, pedagogas, médicas, professores. Mas somos também amigos, inimigos, companheiros, amantes, solidários, infiéis, militantes, altruístas, ou qualquer outra característica identitária que nos faça dizer mais de nós mesmos do que nossa sexualidade.

É preciso viver e ver a vida, muito além da nossa sexualidade. Tentar ultrapassar as barreiras desses limites que nos aprisiona em seres sexuais. É preciso ir muito além da sexualidade, do mesmo modo como o X-MEN tentar ir muito além da escola Xavier.

Precisamos lutar para deixarmos de sucumbir à nossa "abstrata nudez de ser unicamente humano", nas palavras da filósofa Hannah Arendt. A tarefa não é fácil, e quem quiser tentar, deve estar preparado para o que está por vir. Se os super-heróis dos quadrinhos, transportados para a tela, conseguem, é porque eles acreditam que esse mundo é possível de ser alcançado. Alguém duvida que nós também somos capazes de mudar o mundo?


Sergio Gomes da Silva é Psicólogo Clínico, Especialista em Sexualidade Humana e em Direitos Humanos, radicado no Rio de Janeiro.