sábado, 7 de novembro de 2009

Derrubar Gigantes

Acordei num sobressalto, olhei a primeira página do jornal e vi o senador Marcelo Crivella e os bispos evangélicos Sonia e Estevam Hernandes acenando do alto de um trio elétrico para uma multidão GLS na parada gay. É isso mesmo? Meus óculos! Estou vendo coisas? Estava. Os óculos corrigiram meu desvario óptico matinal: tratava-se de uma parada evangélica, com o sugestivo nome de “marchando para derrubar gigantes”.
Os gigantes - na verdade, as gigantes - a que se referem os religiosos, segundo o jornal, são as diabólicas irmãs siamesas Discriminação e Incompreensão, essas baleias do inferno dignas de toda a extinção. Esqueceram da irmã mais velha, a Intolerância, igualmente execrável. Caramba! E eu que fui dormir achando que os religiosos é que eram os preconceituosos. Apesar da força poética do nome, poderiam ter facilitado nossa vida denominando a passeata de “marchando para derrubar a discriminação e a incompreensão” . Afinal, vindo de um grupo religioso, qualquer ambiguidade pode ser mal compreendida (e até incompreendida) . Imaginem um grupo de talebans marchando para derrubar gigantes.Imediatamente pensaríamos em prédios de Wall Street desabando sobre nossas cabeças. Há quem diga que a marcha evangélica, no entanto, não passou de um ato de desagravo ao casal de bispos Hernandes, condenados pela justiça americana, mas prefiro crer em possibilidades mais magnânimas e libertárias. Sou, afinal de contas, um daqueles sonhadores de que falava John Lennon, o antigo compositor britânico. E não estou sozinho.
O bom disso é que, ao se comprometerem contra o preconceito religioso, os religiosos automaticamente se comprometem contra qualquer preconceito. Como bem sabe qualquer criança minimamente informada, não importa a que modalidades estejam aplicadas, discriminação e incompreensão (e intolerância) são sempre inaceitáveis. De agora em diante estaremos atentos às posturas evangélicas quanto a questões espinhosas como união homossexual, homofobia, pesquisas científicas com células tronco embrionárias, respeito à laicidade do estado etc.
Em contrapartida, respeitaremos igualmente espíritas, católicos, umbandistas, judaístas, testemunhas de Jeová, adventistas, evangélicos, islâmicos, batistas, muçulmanos, budistas, cristãos, crentes, descrentes, pagãos, agnósticos e ateus (perdoem-me os grupos não citados, não é discriminação e incompreensão, é esquecimento e ignorância mesmo). Qualquer hora me abalo pra cima de um trio elétrico desses com o Saramago. Me aguardem.

Tony Belloto

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