quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O que é consciência negra?

Está na moda falar em consciência negra, para bem ou para mal, todos já ouviram esse falar nesse tema. No entanto, será que todos têm noção de seu significado e importância?
Que o Brasil foi escravista, todos tão cansados de saber; que o negro sofreu, foi humilhado, e obrigado a negar sua identidade; incentivado a ter vergonha de si próprio, de sua história, de seu presente… Isso todos já sabem, ou pelo menos deveriam saber. O processo de escravidão foi foda e deixa marcas até hoje, pois mesmo depois da abolição o racismo permaneceu detonando nossas condições de vida, fechando portas, nos exterminando. O racismo no Brasil é tão forte, que está disfarçado em coisas que a gente nem imagina: na política, na cultura, na religião, no nosso dia a dia.
Mas pera lá truta!!!
Uma fita importante é que o racismo, não é só quando alguém me xinga ou me olha com desconfiança (e olha que isso acontece frequentemente) , mas é principalmente o fato de os negros terem menos acesso ao ensino, a moradia digna, saúde, trabalho, renda etc – em todos esses gráficos nós estamos em desvantagem… Alguma coisa tem que ser feita. Mas quem vai fazer? Será que quem tem o poder vai abrir mão de seu privilégio?
O Racismo foi importantíssimo p construir o capitalismo (esse sistema que a gente vive). Toda a riqueza dos Estados Unidos e Europa são fruto da escravidão e colonização dos paises africanos, asiáticos e americanos. O sangue de nossos ancestrais garantiu a qualidade nos paises de 1º mundo. Exterminaram os indígenas, milhões de africanos morriam na travessia do atlântico; Os povos “não brancos” foram roubados em suas riquezas materiais; intelectuais; culturais etc…
Aonde vai esse filme? Em toda historia da humanidade, onde teve opressão teve resistência. E ela ocorreu, desde o primeiro momento: Na África ou no Brasil, nos Estados Unidos ou na Índia… Sempre teve resistência; luta. No Brasil se formaram quilombos; em África, guerrilhas das mais variadas, No Haiti Revolução. É lindo conhecer a historia do Haiti e como aqueles bravos guerreiros deram fim às escravidões, enfrentaram heroicamente a Napoleão. O foda é que pagam até hoje o preço de sua liberdade.
O que consciência negra tem a ver com tudo isso?
Árvore sem raiz não para em pé! Paras as elites se manterem no poder, não adianta apenas reprimir, é necessário fazer o dominado acreditar que é inferior e que não tem outro jeito: “É assim mesmo, sempre foi e sempre será”, “Deus quis que fosse assim”. As elites racistas tentaram de tudo para manter-se no poder. Usaram a religião, a ciência, a moral, a estética, a cultura… cada um desses pontos dá um livro. O fato é que se o oprimido tem auto-estima ele luta.
O nome “consciência negra” foi forjado na luta contra o colonialismo e o racismo como uma resposta a essa questão. Pois não tem luta sem auto-estima, sem amor próprio, sem conhecermos nossa historia e nos orgulharmos dela… por outro lado, não basta só ter orgulho e não lutar. Então as duas coisas devem estar juntas: Orgulho e luta.
Foi pensando nisso que o movimento negro brasileiro lutou para que o dia da consciência negra fosse no 20 de novembro (data que lembra de Zumbi e do quilombo dos palmares) e não do 13 de maio (data da falsa abolição).
A consciência Negra é algo que temos que ter o ano todo. Devemos conhecer a historia de nosso povo, conhecer, valorizar e dar continuidade em nossa tradição cultural (presente na capoeira, candomblé, congadas, maracatu e muita vezes nos ditados de nossos avós, em nosso jeito de fazer as coisas), mas ao mesmo tempo buscar sempre ns organizar e lutar contra o racismo e seus impactos em nossa vida. A luta sem identidade é vazia… A identidade sem luta é mentirosa.

Texto publicado em MOVIMENTO HIP HOP por Deivison Nkosi – Grupo Amandla.
Link: http://acaoperiferica.ourproject.org/?p=6

Assim como o racismo

A criminalização da discriminação contra idosos, deficientes e homossexuais foi aprovada na Comissão de Assuntos Sociais (CAS) na forma de um substitutivo da senadora Fátima Cleide (PT-RO) ao projeto de lei da Câmara (PLC 122/06). A proposta original, de autoria da então deputada Iara Bernardi, inclui a punição de atos discriminatórios por sexo, gênero ou orientação sexual na já existente lei que pune a discriminação por racismo, religião ou local de nascença.
A proposta agora volta à Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH). Caso aprovado, o projeto retornará à Câmara dos Deputados, uma vez que foi modificado pelos senadores. “Creio que foram feitos bons entendimentos e acordos sobre a redação do projeto de lei 122. O projeto original tinha algumas falhas legislativas que precisaram ser corrigidas, e por isso foi feito um substitutivo. Neste substitutivo foi consenso que deveríamos incluir outras populações que também são discriminadas”, avalia Toni Reis, presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT).
Segundo o ativista, a aprovação do substitutivo na Comissão de Assuntos Sociais é o primeiro passo de um longo caminho. Depois de votado na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa, o projeto deverá passar pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, e depois no Plenário do Senado. “Depois disto tudo o projeto retorna para o Câmara dos Deputados e finalmente para sanção presidencial”, explica Reis.
Artigo publicado no site:

terça-feira, 17 de novembro de 2009

É PRECISO PRESERVAR A AUTONOMIA DOS PROFISSIONAIS DA SAÚDE E DISPONIBILIZAR SEUS SERVIÇOS À POPULAÇÃO

Algumas lideranças médicas tentam, há anos, restringir a autonomia dos profissionais da saúde. O projeto, que ficou conhecido como ATO MÉDICO (PL n. 7703/06 - clique aqui), acaba de ser aprovado na Comissão de Trabalho de Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados Federais, dando aos médicos a exclusividade do diagnóstico e da prescrição dos tratamentos.

O projeto aprovado está melhor do que a versão original do Senado, na medida em que foram estabelecidos, também, alguns atos privativos de outras profissões da saúde. Esse projeto ainda será discutido em outras comissões antes de ser votado no Plenário da Câmara e retornar ao Senado.

Desde 2004, o Crefito-SP defende que a população tem o direito ao livre acesso aos profissionais da saúde, sem que tenham de passar necessariamente por uma consulta e prescrição médica. Ao dar aos médicos a prerrogativa exclusiva do diagnóstico nosológico (doenças) e da prescrição terapêutica (tratamento), o PL 7703/06 retrocede ao passado e acaba com a autonomia dos profissionais da saúde. Para atender seus pacientes e clientes, os profissionais da saúde precisariam esperar o encaminhamento de um médico com o diagnóstico da doença e a receita do atendimento que eles deveriam executar.

Em outras palavras, na forma como está, este projeto os transformaria em técnicos dos médicos. O ESTADO não pode admitir que um profissional da saúde socorra a vida, sem ao menos saber quais são os principais sinais e sintomas (diagnóstico da doença) que acometem a vida do paciente. Para preservar os interesses da vida, o ESTADO deve manter a autonomia dos profissionais da saúde, mas cobrar deles um atendimento de qualidade, punindo rigorosamente, civil e criminalmente, a má prática de seus atos privativos.

Como admitir que os médicos façam a prescrição terapêutica em áreas do conhecimento (i.e., Fisioterapia, Terapia Ocupacional, Fonoaudiologia, Enfermagem, Nutrição, Educação Física, Serviço Social, Psicologia, Farmácia, Odontologia, Biomedicina) em que eles nunca tiveram qualquer tipo de treinamento? A maioria dos pacientes (75%) é portadora de doenças crônicas. As principais doenças possuem causas multifatoriais. Cada profissional da saúde é treinado para diagnosticar e tratar aspectos específicos dessas doenças. Assim, o correto seria o ESTADO promover a autonomia desses profissionais, colocando as habilidades e competências de cada um a serviço da vida saudável.

No entanto, o Ministério da Saúde tem apoiado o referido Projeto de Lei sob o argumento de que este é bom para o SUS. Acredito que o objetivo não declarado do Governo é usar os médicos para fazer uma triagem, dificultando e evitando a obrigação da oferta dos serviços dos profissionais da saúde à população. Afinal, a Constituição Federal e outras leis estabelecem que saúde é direito de todos e dever do ESTADO. É exatamente por causa desse direito que a Justiça tem obrigado o Governo Federal a gastar mais de meio bilhão de reais por ano ofertando serviços de saúde para o contribuinte. Essa conta tende a aumentar, à medida que a população descobre que se recorrer ao Ministério Público, pode obrigar o ESTADO a ofertar os serviços de saúde.

Vejamos a realidade da saúde no Brasil apresentada pelo próprio Ministério da Saúde. Em 2008, o Governo Federal realizou 1.034.992.116 consultas, a um custo de R$ 2,5 bilhões (R$ 2,4 reais em média cada). Essas consultas geraram 573.917.793 exames (R$ 6,3 reais em média cada). Foi uma média de 5,4 consultas por brasileiro, a um custo total ao Governo de 5,4 bilhões, apenas em medicamentos. Como explicar que apesar dessa enorme cobertura e de sermos uma população jovem, temos 50 milhões de portadores de doenças crônicas e ainda vivemos uma década a menos do que poderíamos? Os dados do Governo Federal demonstram como funciona e opera a indústria da doença no Brasil.

Na prevenção da doença, representada principalmente pelo Programa de Saúde da Família, o Governo emprega 30 mil equipes (médico, enfermeiro e agente comunitário) a um custo de R$ 2,3 bilhões, em 2008. Em tese, essas equipes atenderiam 90 milhões de habitantes. Por outro lado, o gasto do Governo Federal com o pagamento de atendimentos prestados pelos profissionais da saúde é ínfimo. Apenas para citar um exemplo, um fisioterapeuta e terapeuta ocupacional recebem menos de R$ 6 reais por um atendimento. Portanto, não é a oferta e a remuneração dos profissionais da saúde que oneram os gastos do Governo nessa área.

Por trás do movimento do Ato Médico também estão os principais planos de saúde, os quais possuem representantes no Congresso Nacional, instalados nas principais Comissões que decidem o futuro dos projetos de lei. Esses planos de saúde acreditam que a oferta dos serviços dos profissionais da saúde poderia aumentar seus custos. Mantêm os profissionais da saúde trabalhando em contratos leoninos, sem reajuste há mais de 15 anos. Porém, não percebem que eles também são vítimas dos crescentes custos da indústria do diagnóstico e farmacêutica.

Acredito que a maioria absoluta dos médicos não concorda com o movimento corporativista e míope de parte de suas lideranças que tentam subjugar os profissionais da saúde. Os médicos sempre fizeram diagnóstico médico e prescrição médica muito bem. Foi graças ao exercício talentoso dessas habilidades e competências que eles lograram o respeito e admiração de todos, inclusive dos demais profissionais da saúde.

Para fazermos a virada na saúde, precisamos da união de todos os profissionais da saúde com a população. Essa mudança passa pela eleição de presidente, governadores, senadores e deputados federais em 2010 comprometidos com os interesses da vida saudável da população. Com um Congresso forte e vigilante dos interesses da sociedade poderemos impedir que projetos de lei, como o PL 7703/06, que fazem mal à saúde da população e aos interesses dos profissionais da saúde se transformem em leis.

Com um poder Executivo sensível aos interesses da saúde dos brasileiros, poderemos implementar uma revolução na administração pública, colocando os impostos do contribuinte a serviço da vida.

Prof. Dr. Gil Lúcio Almeida
Presidente do Crefito-SP

Ato médico: envie o questionamento ao PL para senadores e presidência da República

Prezados Psicólogos, estudantes, profissionais da saúde, sociedade em geral
Avisem seus colegas, alunos, amigos.
O texto do projeto, aprovado pela Câmara e que agora segue para votação no Senado, ainda mantém um vício de origem: fere os princípios do SUS, a autonomia das profissões e limita o exercício dos profissionais de saúde.
Queremos uma saúde multiprofissional e interdisciplinar, como garante a Constituição Federal para o SUS.
Veja aqui a mensagem que será enviada aos senadores, à presidência da República e ao ministério da Saúde:
Aos excelentíssimos senhores e senhoras,
Presidente da República
Senadores e Senadoras
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva colocou de maneira precisa sua preocupação com o PL do Ato Médico durante discurso proferido na IX Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, maior evento na área de saúde pública do País, realizado no início de novembro em Recife(PE). “Não existe nenhuma moeda no mundo com um único lado. Temos que construir os dois lados. Cada função tem sua importância. Estou me interessando por esse tema do Ato Médico. Não quero fazer injustiça, mas quero compreender o que está em jogo. Quando você vira presidente da Republica e tem que lidar com muitos lados, começa a perceber que é preciso tomar muito cuidado com transformar corporações em coisas muito poderosas”, disse o presidente, no contexto de discurso que defendeu de maneira profun! da o Sistema Único de Saúde.
O Conselho Federal de Psicologia (CFP) reafirma sua posição sobre o PL do Ato Médico (n°. 7703/06), questionando- o por manter, no texto aprovado pela Câmara dos Deputados em 21 de outubro, seu vício de origem, que é colocar em risco o cuidado integral à saúde preconizado pela Constituição Federal para o SUS, uma das grandes conquistas do povo brasileiro após a redemocratização do país.
A atenção à saúde deve continuar sendo realizada pelo conjunto de profissões da saúde, garantindo ao usuário do SUS a atenção multiprofissional e interdisciplinar e o direito a uma atenção à saúde que leve em conta as diversas determinantes dos processos de saúde e doença.
O Conselho Federal de Psicologia apóia a iniciativa de regulamentação profissional da medicina. Contudo, não se pode ferir a autonomia de outras profissões.
Em 2004, o CFP participou ativamente das mobilizações que reuniram 10 mil pessoas em manifestação realizada em Brasília, além de outros eventos em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Santos e outras cidades. Naquele momento, profissionais e estudantes de 13 categorias da área de saúde conseguiram explicar à população e ao poder legislativo os enormes prejuízos que o PL causaria à sociedade brasileira caso fosse aprovado.
Assim, neste momento em que o Projeto de Lei 7703/06, conhecido como PL do Ato Médico, retorna ao Senado Federal para que seja reavaliado pelos senhores após as alterações realizadas pela Câmara dos Deputados, nós psicólogos solicitamos que o Senado Federal e a Presidência da República empenhem-se em não perder de vista seu papel essencial na garantia das conquistas do SUS, dos direitos dos usuários do sistema de saúde à atenção integral e a garantia da autonomia de todas as profissões da área.
O PL do Ato Médico engessa o trabalho multiprofissional e interdisciplinar na saúde.
Quem sai ferido é o usuário.
Conselho Federal de Psicologia


Clique aqui e envie mensagens aos senadores e à Presidência da República questionando o PL do Ato Médico!

Entenda melhor a proposta do PL do Ato Médico clicando aqui!

Respeito é bom!

"Respeito é bom e eu gosto", diz uma das mil frases feitas - esse sutil veneno ou pontapé no estômago - que pontilham nossa sabedoria dita popular. Vale para muitos aspectos da nossa vida. Vamos ver alguns.
Escuto frequentemente a queixa de mulheres de que ainda não são respeitadas como merecem, em seu trabalho ou individualmente. Primeiro, é uma questão de tempo, pois em quase todos os territórios da atividade humana, menos cozinhar e parir, mulheres são novidade. Ainda estamos buscando nosso jeito de trabalhar, de comandar, de usar nossa autonomia.
Certa vez, querendo me elogiar, um crítico escreveu: "(...) é uma excelente escritora, pois, embora sendo mulher, escreve com mão de homem". Isso por si basta para reconhecer a carga de preconceito que sobrevive mesmo entre pessoas com certo preparo, inclusive mulheres, diga-se de passagem, que em geral são os piores juízes de outras mulheres. Se ela faz bem um trabalho (vale para juízas, reitoras, governadoras, vereadoras, motoristas de ônibus, policiais, grandes cirurgiãs etc.), é porque o faz como homem. Quantas gerações terão de passar, para que isso mude?
Esse preconceito é demorado e obstinado, e nós mulheres colaboramos com ele dando nossa melancólica parcela, por exemplo, no jeito como nos portamos, como nos vestimos, como agimos no trivial, ou quando estamos no poder, qualquer poder. Não é por nada que boa parte das propagandas de quaisquer produtos usa mulheres quase nuas ou em trejeitos sensuais: vende, dá ibope, dá vontade de comprar... o que é um modo de poder. Falo com certa frequência na psicóloga que atende seus pacientes de minissaia ou profundos decotes, e digo que, lidando com a alma desses pacientes, a roupa não parece muito adequada. Nada contra a peça de roupa, desde que num corpo adolescente: adolescentes ainda não atendem pessoas com problemas psicológicos.
Enquanto nos portarmos feito crianças pouco inteligentes, ou enquanto nosso maior trunfo forem nádegas firmes, fica difícil reclamar que não nos respeitam o bastante. Estarei dando muito valor a exterioridades como saia, joias, trejeitos? Estou. A aparência é nosso primeiro cartão de visita, dizendo coisas como: eu me acho linda, eu sou sensual, estou consciente disso. O segundo cartão é a linguagem: se eu não sei nem articular direito meu pensamento falando ou escrevendo, não vou ser um grande candidato a um emprego razoável, pelo menos um cargo em que eu precise pensar... e falar.
Pais também se queixam de que os filhos não os respeitam. Um bom começo de diálogo é indagar como eles, pais, se portam em casa. Gentis um com o outro, com empregadas, com os filhos - ou a gente acha que dentro da porta de casa, com filhos, vale tudo, até grosseria e falta de compostura? O comportamento das crianças e adolescentes e seus conceitos sobre o mundo (eles os têm desde cedo, não se iludam!) refletem sua casa. Um pouco incômodo: querendo ou não, somos seus primeiros modelos, e eles percebem muito bem o que é natural e o que é fingido em nós.
Isso se estende para a escola, onde professores suportam violência verbal e física, agressividade, má-educação, hostilidade por parte de alguns alunos - não todos, possivelmente nem a maioria. Se pudéssemos pesquisar a vida familiar dessa meninada, com frequência iríamos constatar que ela apenas reproduz ou continua, na rua, no pátio da escola e na sala de aula, o tratamento que predomina em sua casa. Lá, talvez, os filhos não conheçam limites ou, quem sabe, o pai é do tipo que aprecia um coronelismo ultrapassado.
Observo muita gente, e não só jovens, dando de ombros ou rindo ao assistir a uma entrevista de alguns dos nossos líderes (ou escutando belas frases sobre ética): também na vida pública, o respeito tem de ser conquistado e merecido. Sendo humanos, homens, mulheres e crianças, somos ainda animais predadores, querendo ocupar espaço a patadas. Se pudermos, em vez de falar, rosnamos; em lugar de curtir, cuspimos em cima. A gente precisa ser domesticado desde o dia em que nasce.
Lya Luft é escritora.
Artigo publicado na revista VEJA no dia 18 de novembro de 2009.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Senado coloca em seu site oficial enquete sobre PLC 122

O site oficial do Senado Brasileiro colocou no ar no mês de outubro uma enquete com o seguinte tema: “Você é favorável à aprovação do projeto de lei (PLC 122/2006) que torna crime o preconceito contra homossexuais?”. O projeto em questão, (PLC 122) é o que criminaliza a homofobia e entrará em breve para votação no Senado e pode virar lei.

Um sonho dos militantes gays e um pesadelo para os evangélicos fundamentalistas, o projeto de lei datado de 2006, de autoria da ex-deputada Iara Bernardi (PT-SP), visava inicial punir estabelecimentos e pessoas que discriminassem gays, lésbicas e transgêneros em virtude de sua orientação sexual. Recebido com polêmica, o projeto passou anos às escuras e chegou a passar pela Câmara dos Deputados em votação em 2006.

Ao chegar ao Senado, o projeto sofreu novo embate contra os evangélicos que acreditam que seu direito a criticar a homossexualidade seria perturbado. Com isso, o projeto ficou na gaveta até que a senadora Fátima Cleide (PT-RO) anunciou um substitutivo, incluindo discriminação a idosos e deficientes e equalizando as penas com outras leis similares, como a do racismo. Agora o projeto volta para as comissões de mérito e em seguida será apreciado pelas casas legislativas.
Apesar do apoio do governo Lula ao tema, o projeto enfrenta falta de vontade política nas duas casas e uma artilharia pesada da bancada evangélica que é contra a matéria. Mesmo sendo um tema de Direitos Humanos, o projeto de lei corre o risco de ir para a gaveta. Senão a gaveta definitiva, ao menos até o fim das eleições de 2010.

Por isso é importante votar na enquete do Senado. Até o momento, os que votam contra o projeto estão ganhando, com 61% dos votos, no total de mais de 60 mil votos apesar de no mesmo dia termos começado com vantagem. O importante é votar e mostrar que a lei é importante para nós.
Publicado por Redação da revista Lado A em 05 de novembro de 2009.

Você sabia que o Cinemark fez uma doação de 9.999 mil dólares contra o casamento gay?

O presidente do Grupo Cinemark de salas de cinemas, Alan Stock, teria doado 9.999 dólares a um grupo que lutou para a aprovação da Proposição 8, na Califórnia, que baniu o casamento gay que já havia sido aprovado no estado pela Corte Suprema, direito que foi revertido em consulta pública realizada durante as eleições presidenciais norte-americanas no início do mês. Isso foi suficiente para lançaram campanha de boicote aos cinemas da rede no site.

O estado de Utah é um dos mais conservadores dos EUA. Quando foi lançado o filme Brokeback Mountain, em 2005, outra rede local chegou a não exibir o filme. O cinema mais famoso da rede Cinemark é o Holiday Village em Park City, no Utah, onde se realiza o Festival Sundance de cinema independente. Com mais de 80 milhões de dólares de faturamento por ano, somente nos EUA, a Cinemark é a principal rede de cinemas das Américas, tendo quase 400 salas de exibição no Brasil.

O site http://www.nomilkforcinemark.com/ propõe que gays achem cinemas alternativos para assistir ao lançamento gay do ano, Milk, que conta a vida do vereador assassinado em São Francisco Harvey Milk, o primeiro gay assumido eleito para um cargo importante. A película é estrelada por Sean Penn e estréia na próxima semana por lá.

Artigo publicado em 20 de novembro de 2008 por:
http://www.revistaladoa.com.br/website/artigo.asp?cod=1592&idi=1&moe=84&id=9432

"Os gays não iam deixar barato", por Marta Góes

O que aconteceria se um rapaz gay vestindo, talvez, uma calça apertada ou uma camiseta curta, ao chegar à faculdade em que já estuda há algum tempo, fosse perseguido por uma multidão empenhada em insultá-lo e em passar a mão em seu corpo?

No primeiro momento, como aconteceu outro dia com a jovem aluna da Uniban perseguida pelos colegas, talvez pedisse socorro a um professor, a um amigo, à força policial mais próxima.

Mas, no dia seguinte, tenho certeza, o mundo gay, por intermédio de suas ONGs, publicações, blogs, sites, líderes, reagiria com estridência.

Assim como acaba de fazer diante das declarações desastrosas do governador Requião, os gays sabem se mobilizar e exigir respeito.

Talvez por terem experiência no confronto físico, ou por conhecerem o peso da clandestinidade, não engolem abuso em silêncio.

O que aconteceu com o a aluna da Uniban foi grave: foi quase um linchamento.

Houve vozes isoladas que se manifestaram com indignação, houve a reportagem da Folha, na qual se podia perceber, mesmo na linguagem apressada do jornalismo diário, a consciência da gravidade do acontecimento.

Vai fazer uma semana e - posso estar enganada - mas não vi ninguém falar em nome das mulheres, de todas as mulheres.

Nenhuma ministra, nenhuma secretária de estado, a direção da faculdade, a delegacia da mulher, as alunas dessa escola perigosa.

Será que ninguém compreendeu que o ataque foi contra todas as mulheres, e não apenas contra uma jovem de vestido curto?

E quando todas as mulheres são insultadas publicamente, quem exprime o seu protesto? Será que somos ainda uma categoria e que temos representantes?

Ou devemos reagir solitariamente, uma por uma?

Não estou querendo recuperar os dias do feminismo militante, em que havia associações chamadas “coletivos”, divididos em dezenas de especialidades - os das mulheres negras, os das homossexuais, os das professoras universitárias...

Tampouco tenho saudade da época em que toda semana alguma mulher articulada e articulista afirmava que os homens estavam “perplexos” diante dos novos comportamentos (até porque, a essa altura, se alguém está perplexo somos nós, diante de atitudes arcaicas como a dos rapazes da Uniban).

O que eu gostaria de recuperar é aquilo que, graças a tantos esforços, parecia conquistado: direitos iguais. No mínimo, o de escolher a própria roupa.

Garanto que os gays não iam deixar barato.

Quem é Marta GóesÉ jornalista e escritora, autora das peças "Prepare Seus Pés para o Verão" e "Um Porto para Elizabeth Bishop", que foi encenada em Nova York, por Amy Irving. Tambem a "Reserva", encenada por Irene Ravache. Trabalhou no "Caderno2", do jornal "O Estado de S. Paulo", e nas revistas "IstoÉ" e "Cláudia", entre outras publicações.

Pastores evangélicos gays irão assinar contrato de união estável no Rio

LIANA LEITE
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, NO RIO
O sonho de casar e ter filhos está próximo de se tornar realidade para dois pastores evangélicos. Juntos há três anos, Fábio Inácio de Souza, 30, e Marcos Gladstone, 33, assinam contrato de união estável no próximo dia 20, no Rio. A data, Dia de Zumbi dos Palmares, foi escolhida porque, segundo eles, representa a luta contra o preconceito.

Dois dias após começarem o namoro, em 2006, eles fundaram a Igreja Cristã Contemporânea, hoje com três sedes e mais de 500 seguidores. A denominação tem como objetivo acolher o público gay que, segundo eles, não se sentia bem em outras igrejas.

Antes de conhecer Gladstone, Souza foi pastor da Igreja Universal do Reino de Deus e, por quatro anos, noivo de uma mulher. "Íamos nos casar, mas chegou um momento em que não pude mais me enganar. Eu nasci gay. Quando resolvi assumir minha homossexualidade, tive que me afastar da igreja porque aquilo era visto como um pecado."

Os dois, que passarão a lua de mel na Costa do Sauípe, na Bahia, planejam adotar uma criança. "Queremos todos os direitos que os casais heterossexuais têm. Estamos construindo um patrimônio juntos", afirma Souza.

Os dois esperam abrir caminho para novas uniões entre pastores evangélicos.
1º ENLACE MATRIMONIAL HOMOAFETIVO ENTRE PASTORES NO BRASIL

Os pastores Marcos Gladstone (33 anos) e Fábio Inácio (30 anos) que já foi pastor da Igreja Universal do Reino de Deus se casarão no próximo dia 20/11/2009. O dia não poderia ser mais sugestivo, feriado da consciência negra no Estado do Rio de Janeiro, dia que celebra o marco contra o preconceito racial.

Será o primeiro casamento homoafetivo entre dois pastores do país e um divisor de águas contra a homofobia religiosa no Brasil.

Os noivos são fundadores da Igreja Cristã Contemporânea, uma denominação evangélica que abraça a comunidade LGBT. Segundo os noivos “a Igreja Cristã Contemporânea nasceu e cresceu por sobre o amor de dois homossexuais, por isso é a igreja que ama realmente a todos sem preconceitos.”

O casamento entre os pastores será provavelmente um dos mais importantes marcos no meio da comunidade LGBT do país, seguindo a tradição protocolar de qualquer cerimônia matrimonial.

Em virtude da união entre pessoas do mesmo sexo ainda não ser reconhecida legalmente no Brasil, os noivos assinarão um contrato de união homoafetiva durante a cerimônia.

A cerimônia para 300 convidados ocorrerá em uma sofisticada casa de eventos no Alto da Boa Vista, e será oficiada por um dos pastores da própria Igreja.

Realmente o crescimento da Igreja Cristã Contemporânea impressiona. Uma igreja que começou há 3 anos com 20 pessoas no terceiro andar de um antigo sobrado na Lapa, hoje tem mais de 500 membros efetivos sem contar os participantes regulares e possui igrejas no Centro, Nova Iguaçu e Campo Grande. Atualmente a sede da igreja está no centro do Rio se reúne nos cultos dominicais noturnos num grande Teatro na Cinelândia, devido a falta de espaço na sede da Lapa.

Além da Bíblia Sagrada como regra de fé e prática a Igreja Contemporânea possui literatura essencial; trata-se do livro “A Bíblia sem preconceitos” do pastor Marcos Gladstone que explica porque a Bíblia não condena a homossexualidade através de uma releitura dos textos sistematicamente utilizados para condenação dos homossexuais mostrando inclusive erros nas traduções das mesmas passagens.
Jornal FOLHA DE SÃO PAULO, Editoria Cotidiano, publicado em 09 de novembro de 2009.

sábado, 7 de novembro de 2009

Derrubar Gigantes

Acordei num sobressalto, olhei a primeira página do jornal e vi o senador Marcelo Crivella e os bispos evangélicos Sonia e Estevam Hernandes acenando do alto de um trio elétrico para uma multidão GLS na parada gay. É isso mesmo? Meus óculos! Estou vendo coisas? Estava. Os óculos corrigiram meu desvario óptico matinal: tratava-se de uma parada evangélica, com o sugestivo nome de “marchando para derrubar gigantes”.
Os gigantes - na verdade, as gigantes - a que se referem os religiosos, segundo o jornal, são as diabólicas irmãs siamesas Discriminação e Incompreensão, essas baleias do inferno dignas de toda a extinção. Esqueceram da irmã mais velha, a Intolerância, igualmente execrável. Caramba! E eu que fui dormir achando que os religiosos é que eram os preconceituosos. Apesar da força poética do nome, poderiam ter facilitado nossa vida denominando a passeata de “marchando para derrubar a discriminação e a incompreensão” . Afinal, vindo de um grupo religioso, qualquer ambiguidade pode ser mal compreendida (e até incompreendida) . Imaginem um grupo de talebans marchando para derrubar gigantes.Imediatamente pensaríamos em prédios de Wall Street desabando sobre nossas cabeças. Há quem diga que a marcha evangélica, no entanto, não passou de um ato de desagravo ao casal de bispos Hernandes, condenados pela justiça americana, mas prefiro crer em possibilidades mais magnânimas e libertárias. Sou, afinal de contas, um daqueles sonhadores de que falava John Lennon, o antigo compositor britânico. E não estou sozinho.
O bom disso é que, ao se comprometerem contra o preconceito religioso, os religiosos automaticamente se comprometem contra qualquer preconceito. Como bem sabe qualquer criança minimamente informada, não importa a que modalidades estejam aplicadas, discriminação e incompreensão (e intolerância) são sempre inaceitáveis. De agora em diante estaremos atentos às posturas evangélicas quanto a questões espinhosas como união homossexual, homofobia, pesquisas científicas com células tronco embrionárias, respeito à laicidade do estado etc.
Em contrapartida, respeitaremos igualmente espíritas, católicos, umbandistas, judaístas, testemunhas de Jeová, adventistas, evangélicos, islâmicos, batistas, muçulmanos, budistas, cristãos, crentes, descrentes, pagãos, agnósticos e ateus (perdoem-me os grupos não citados, não é discriminação e incompreensão, é esquecimento e ignorância mesmo). Qualquer hora me abalo pra cima de um trio elétrico desses com o Saramago. Me aguardem.

Tony Belloto